terça-feira, janeiro 09, 2007


NATIVO

Por ter nascido, aberto os olhos dentro da mata
Peguei esse olhar de ave espantada –
As pedras me rodeia e vem de baixo,
Como agourado, o que vem de baixo pode me atingir.
Adquiri essa aptidão de entortar veredas,
E a deixar retos os caminhos tão iguais,
Como todas as coisas que vi
Sempre, tão do mesmo jeito.
Coisas que não tinham nome,
Algumas a gente punha apelidos,
Como os pássaros, do mesmo meu desconfiar,
Uma ave foi sempre ave,
Poço se chamava poço,
E grota era grota, no inverno e no verão,
Cheia e seca no chão.
O palavreado da gente era livre
Não pediam esses e erres
Colocados como verdadeiramente dizem
E podíamos colocá-las aonde queríamos
No começo, no meio e no fim da fala,
E todos entendiam o que se dizia,
E podia responder livre, vindo ao contrário.
Por ter nascido e criado na mata,
A mata era a mãe da gente,
E tudo que pedíamos dela, ela nos dava,
Plantadas, pela mão de quem
Antes de eu nascer e saber que pedra
Era corisco descido do céu,
E que nada era mistério, a não ser as almas
Encantadas. O resto a gente improvisava,
Troncos podiam ser bois nominados,
Talos viravam cavalos ariscos

Montados pelos vaqueiros em bando.
naenorocha

2 comentários:

Zeca Paleca disse...

Um encantador poema. Vale a pena ler e reler.

Axiológico disse...

muito legal...