segunda-feira, novembro 27, 2006

O EXPRESSO DA BAIRRADA


Dizem que antes de morrermos o cérebro faz uma retrospectiva relâmpago da nossa existência: o primeiro beijo; o momento em que passámos no exame de condução; a primeira vez que fizemos amor; o nascimento dos filhos; o dia em que ligámos a televisão e demos de caras com os políticos mais importantes.
Como fui rejeitado como repórter nos dois mais ilustres jornais concelhios por ser nictalope, isto é, não ver bem de noite, mas isso é um defeito grave que eu tenho na minha retina, entrei na minha habitual regateirice, mas...nada feito. Os dois directores não me quiseram lá.
Fui, então, pedir emprego ao Diário "EXPRESSO DE LUSO", muito conhecido dos blogues lusenses. Para gáudio da minha família e de mim próprio, fui imediatamente aceite, a direcção deu o seu "agrément" à minha contratação. " À tout seigneur tout honneur", como dizem os franceses. Honra me seja feita, pois os meus predicados jornalísticos são excelentes e anda para aí cada um e cada uma a escrever calinadas a torto e a direito. Até já inserem notícias clonadas dos nossos blogues, vejam lá!
No dia que fui aceite, fui uncumbido de fazer uma reportagem sobre a sucessão do Presidente da JFL. Espinhosa tarefa, mas mãos à obra.
Levantei-me muito cedo, meti-me no meu "fusca", levei o meu violão e zás...rumo a Lisboa, pois entendi ir à Assembleia da República, lugar onde estão os grandes cérebros, portanto a solução da sucessão estaria mesmo ali à mão.
Resolvi tomar o pequeno-almoço no Rossio e entrei na Pastelaria Suiça para beber um galão e comer um pastel de nata, duas coisas de que eu gosto muito e que não me fazem merecimismo.Quando lá entrei, o meu espanto foi total. Encontrei, sentados na mesma mesa, o Alberto João Jardim, o Major Valentim Loureiro, e o Avelino Ferreira Torres a tomarem a bica.
Então não é que estas grandes vedetas da política não estavam entre os três discutindo qual deles iria suceder ao HOMERO nas próximas eleições autárquicas. Querem ouvir o que eles estavam a dizer? Então vamos lá:
AJJ: - Eu vou fazer uns túneis maiores do que o de Carpinteiros, para resolver o problema do trânsito no Luso!
VL: - Eu vou dar um automóvel a cada lusense!
AFT: - Eu vou apetrechar a Junta de várias máquinas para servir o bom povo de Luso!
Resolvi falar para os botões do meu casaco e disse. «Isto é bestial! Qualquer um destes três põe o LUSO na frente do pelotão nacional!»
Armado em inteligente - deu-me para isso - entrei na conversa, pedindo licença para o fazer, e lancei para a mesa a carta SCHOPENHAUER, um dos filósofos mais pessimistas da história, e fiquei a aguardar a reacção dos três "filósofos".
Eis que, de repente, para meu grande espanto, entra o HOMERO lá na pastelaria e grita:
- ALTO AÍ E PÁRA O BAILE! LÁ EM CASA MANDO EU!
Saí porta fora, sentei-me no meu fusca, comecei a tocar violão e, depois, regressei ao Luso. Pelo caminho vim a pensar partilhar esta sensacional notícia com os nossos colegas da Mealhada, mas reflecti, reflecti e fiquei bloqueado, o que me fez parecer aqueles repórteres que estão no aeroporto à espera dos reforços de Inverno e que quando os futebolistas chegam lhes espetam os microfones encostados aos dentes, ainda que não saibam o que perguntar. Resolvir então colocar uma pergunta aos botões do meu casaco:
- Será que ele e ela merecem?

2 comentários:

Nokitas disse...

Só contamos com aqueles que dizem: PRESENTE!

Quim Torreiros disse...

Mereceste bem o emprego que te deram lá no Expresso.